Quinta-feira

Moderação no julgar

Moderação no julgar

Cada um pensa conforme lhe convém e apresenta razões para suas caprichosas opiniões. A maior parte dos homens põe a paixão na frente do juízo. Quando duas pessoas sustentam posições contrarias, cada uma pensa ter razão. Mas a razão é fiel e não tem duas caras. O sábio deve agir com cautela em assuntos tão delicados, e sua própria dúvida irá corrigir o julgamento inicial sobre o comportamento alheio. Ao se colocar no lugar do outro e examinar seus motivos, não condenará nem se justificará tão cegamente.




Metade do mundo ri da outra metade, e ambas são tolas

Metade do mundo ri da outra metade, e ambas são tolas

Dependendo da opinião, ou tudo é bom, ou tudo é ruim. Aquilo que uns perseguem outros evitam. Por isso, quem deseja regular tudo segundo seu critério é um tolo insuportável. A perfeição não depende de uma única opinião: os gostos são tantos quantos os rostos, e igualmente variados. Não existe defeito que não seja apreciado por alguém. Não desanime se algumas coisas não agradam a uns, pois não vão faltar outros que as apreciem. O aplauso também não deve ser motivo de orgulho, porque sempre vão existir condenações. A regra para a verdadeira satisfação é a aprovação das pessoas conceituadas, que tem voz e voto nessas matérias. Não se vive de um só critério, nem de um só costume, nem de um só século.

Estar no auge da perfeição

Estar no auge da perfeição
Não se nasce feito.Cada dia vamos nos aperfeiçoando no pessoal e no profissional, até chegar ao ponto mais alto, à plenitude de qualidades, à eminência. Isto se conhece no gosto refinado, na pureza da inteligência, na maturidade do julgamento, na retidão da vontade. Alguns nunca chegam a ser completos, sempre lhes falta alguma coisa. Outros demoram para chegar lá. O homem "acabado"-sábio em atos e palavras- é aceito, e inclusive desejado, no seleto grupo dos discretos.

Deixar os outros com fome

Deixar os outros com fome
Deixe um resto de néctar nos lábios. O desejo é a medida da estima. É bom aliviar a sede física , mas não sacia-la: o bom, se é pouco, é bom duas vezes. Perde-se muito na segunda vez. As grandes doses de agrado são perigosas porque levam a se desprezar a mais eterna superioridade. A única regra para agradar é pegar o apetite com fome. Um desejo impaciente é mais estimulante do que se fartar de prazer.Uma felicidade difícil de se conseguir é desfrutada em dobro.

Descobrir o bom de cada coisa

Descobrir o bom de cada coisa

É a marca do bom gosto. A abelha logo acha a doçura para a colméia, e a víbora, a amargura para o veneno. O mesmo acontece com os gostos: uns preferem o melhor e outros o pior. Em tudo há algo de bom, especialmente nos livros, pois são resultado da reflexão. O caráter de alguns é tão desgraçado que, entre mil qualidades, encontrarão o único defeito, e o criticarão e o aumentarão. Estes recolhem as sujeiras das vontades e das inteligências, sobrecarregando-se de infâmias e de defeitos, não por serem perspicazes, mas como castigo por seu mau discernimento. Levam uma vida péssima, pois só se alimentam de amarguras e imperfeições. Muito melhor é o gosto daqueles que, entre mil defeitos, logo encontrarão a única perfeição que escapou à boa sorte.

Compreender o temperamento das pessoas com quem se lida

Compreender o temperamento das pessoas com quem se lida

Para saber das suas intenções. Se as causas são conhecidas, se conhecem as e conseqüências delas e se deduzem as intenções. O pessimista é agoureiro, e o maledicente sempre encontra culpas. Sempre imaginam o pior. Como não vêem as coisas boas do presente, anunciam o mal futuro. O apaixonado vê as coisas diferentes do que são, porque é movido pela paixão, não pela razão. Cada um fala segundo suas preferências e seu humor, e todos estão longe da verdade. É preciso decifrar os rostos e interpretar os sinais da alma, Assim se conhecerá o tolo porque está sempre rindo e o falso porque nunca ri. Cuidado com o perguntador, seja porque é indiscreto, seja porque se fixa nos defeitos. Não espere muito dos feios, porque costumam se vingar da natureza por tê-los favorecido tão pouco. A tolice é diretamente proporcional à beleza.

Conhecer seu pior defeito

Conhecer seu pior defeito
Ninguém vive sem o contraponto da melhor qualidade. Se o pior defeito for favorecido, ele nos dominará como um tirano. Devemos declarar-lhe guerra. O primeiro passo é descobri-lo: conhecido será vencido. Para ser senhor de si, é preciso refletir sobre si mesmo. Vencido esse defeito, os outros acabarão.

Cercar-se de pessoas intelligentes

Cercar-se de pessoas inteligentes

Os poderosos tem muita sorte em ter ao seu lado homens de grande inteligência, capacitados para resolver os problemas causados pela ignorância e que lutam por eles nas situações mais difíceis. Servir-se de sábios é uma grandeza especial. Supera o gosto bárbaro de Tigrano, que fazia dos reis vencidos seus serviçais. É muito melhor outro tipo de domínio: transformar, por uma arte especial, aqueles que a natureza dotou de inteligência superior em nossos servidores. Há muito o que conhecer, a vida é curta e não se vive se não se sabe. É portanto, uma habilidade especial aprender sem esforço, aprender muito de muitos, sabendo tanto como todos. Se você conseguir isso, será capaz de falar por muitos em uma reunião, pois por sua boca vão falar tantos sábios quantos foram os que o prepararam. Conseguirá assim, com suor alheio, fama de oráculo. Aqueles que não puderem ter a sabedoria como serva devem tê-la ao menos como companheira.

Começar com cuidado

Começar com cuidado

A tolice sempre entra de roldão, pois todos os tolos são audazes. A mesma estupidez que os impde de perceber o perigo depois não lhes deixa ter a sensação de fracasso. Mas a prudência chega com grande tato. A observação e a cutela são

seus batedores, abrindo caminho para que possa avançar sem perigo. Qualquer ação irrefletida está condenada pela discriçcão, ainda que às vezes se salve pela sorte. A sagacidade deve estudar o terreno e aprudencia conduzir à terra firme. Hoje há muitos perigos no trato humano e convém explorar o caminho com cuidado.

Caráter e inteligência

Caráter e inteligência
São os dois pólos para exibir as qualidades de um homem. Um sem o outro é boa sorte pela metade. Não basta ser inteligente, é preciso também ter predisposição de caráter. A má sorte do tolo é desconsiderar a sua condição, ocupação, vizinhança e amizades.

Agir somente se não houver duvidas

Agir somente se não houver duvidas

Se quem age suspeita que esta cometendo um equívoco, quem observa terá certeza do erro, principalmente se cor um rival. Se, no calor da paixão, toma-se uma decisão apressadamente e com dúvidas, depois a tolice feita será condenada. É perigoso fazer algo de que a própria prudência duvida. Nesses casos, é mais seguro não fazer nada. A sensatez não joga com as probabilidades, anda sempre á luz da razão. Como pode dar certo uma idéia que logo depois de concebida já desperta receios? E se a decisão tomada sem dúvida interior costuma sair mal, o que esperar da que começou com duvidas razoáveis e justificados maus prognósticos?

A arte de viver muito.

A arte de viver muito

É viver bem. Duas coisas acabam rapidamente com a vida: a tolice e o vicio. Uns perdem a vida por não saber cuidá-la e outros por não querer fazê-lo. Assim como a virtude é sua própria recompensa, o vício é o seu próprio castigo. Quem vive no vício encontra um fim duas vezes mais rápido: acaba com a vida e com a honra. Enquanto quem vive na virtude nunca morre. A integridade de espírito é transmitida ao corpo: uma boa vida é plena não só em intensidade, mas também em extensão.

A arte da sorte

A arte da sorte

A boa sorte tem suas regras. Nem tudo é acaso para o sábio; o esforço pode ajudar a sorte. Alguns se contentam em colocar-se com toda confiança às portas da sorte e esperar que ela faça algo. Outros, com mais tino, entram por essas portas e fazem uso de uma razoável audácia que, junto com sua virtude e coragem, pode atingir a boa sorte e obter seus benefícios. Não há, porém, outro caminho a não ser o da virtude e da prudência, porque não há boa ou má sorte, apenas prudência ou imprudência.

Aprender a usar o desprezo

Aprender a usar o desprezo
Uma maneira astuta de conseguir as coisas é desprezando-as. Quando se procura por elas, elas não estão lá, e mais tarde, sem que tentemos, elas vêm correndo. As coisas terrenas são as sombras das eternas, e se comportam como tal; fogem quando as perseguimos e nos perseguem quando fugimos delas. O desprezo é a mais política das vinganças. Uma máxima sábia: nunca se defenda com a caneta, pois ela deixa uma pista e glorifica os rivais, ao invés de puni-los por sua insolência. Os indignos sagazmente se opõem aos grandes homens: tentam ganhar fama de modo indireto, sem merecê-la de fato. Seriam desconhecidos se seus excelentes oponentes não fizessem caso deles. Não existe vingança maior que o esquecimento: enterrar os outros no pó da própria insignificância. Tolos descarados tentam tornar-se imortais incendiando as maravilhas do mundo. Uma maneira de calar falatórios vulgares é ignorando-os. Contestá-los causa prejuízo. Dar-lhes crédito traz descrédito. Contra a emulação, a complacência; pois a sombra do desdouro, ainda que não obscureça de todo a maior qualidade, diminui o brilho.

A sorte e a fama

A sorte e a fama
O que uma tem de inconstante, a outra tem de firme. A sorte ajuda durante, e a fama, depois. Uma age contra a inveja, a outra contra o esquecimento. A fortuna é desejada e às vezes construída com nossos esforços, mas o renome exige trabalho constante. A fama foi e é irmã de gigantes, move-se sempre nos extremos: ou monstros ou prodígios, ou rejeição ou aplauso.
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Aprender a usar o desprezo
Uma maneira astuta de conseguir as coisas é desprezando-as. Quando se procura por elas, elas não estão lá, e mais tarde, sem que tentemos, elas vêm correndo. As coisas terrenas são as sombras das eternas, e se comportam como tal; fogem quando as perseguimos e nos perseguem quando fugimos delas. O desprezo é a mais política das vinganças. Uma máxima sábia: nunca se defenda com a caneta, pois ela deixa uma pista e glorifica os rivais, ao invés de puni-los por sua insolência. Os indignos sagazmente se opõem aos grandes homens: tentam ganhar fama de modo indireto, sem merecê-la de fato. Seriam desconhecidos se seus excelentes oponentes não fizessem caso deles. Não existe vingança maior que o esquecimento: enterrar os outros no pó da própria insignificância. Tolos descarados tentam tornar-se imortais incendiando as maravilhas do mundo. Uma maneira de calar falatórios vulgares é ignorando-os. Contestá-los causa prejuízo. Dar-lhes crédito traz descrédito. Contra a emulação, a complacência; pois a sombra do desdouro, ainda que não obscureça de todo a maior qualidade, diminui o brilho.

Quarta-feira

Baltasar Gracian

Quem foi Baltasar Gracián ?
Escritor espanhol, jesuíta, escreveu várias obras entre elas A Arete da Prudência, em 1647.A obra deveria ser um guia para os homens do seu tempo para ajudar a “desemaranhar nos labirintos das intrigas, das dúvidas e das maledicências cotidianas”, isso segundo Domenico de Masi, o laureado escritor que edita agora a obra do mesmo nome, com uma coletânea de 150 dos 300 aforismos originais, mantendo na medida do possível sua originalidade com pequenas atualizações para facilitar a leitura. Editora Sextante 2003, 3a.a edição.